quinta-feira, junho 23, 2005
Hoje eu faço 100 anos
Hoje eu faço 100 anos. Lá fora, minha família espera que eu saia do quarto para comemorar. Mas eu não vejo o que celebrar, prefiro continuar deitada na cama na qual dormi com meu companheiro por 38 adoráveis verões. O que há para ser celebrado fora o relacionamento imaculado, intenso e visceral que tive com meu homem? O fato de Deus ter me esquecido aqui? De eu ter dado à luz a três incompetentes, machos sem escrúpulos, sem moral, sem coragem? Minhas noras que só pensam em comprar, viajar, na próxima lipo? Meus netos oblíquos, patuscos, preguiçosos? Todas as pessoas de bem que conheci há muito se foram. Me deixaram perdida, em meio a essa gente de valores tortos. Gente que só pensa no próximo milhão, em frequentar restaurantes caríssimos, em construir adegas com vinhos que jamais beberão.
E eu, que já vivi o suficiente para fazer compêndios sobre a podridão moral do homem, vou partir sem deixar legado. Eu, que nunca quis passar dos 50. Eu, que nunca me apeguei ao físico, ao rosto sem rugas, ao corpo esteticamente equilibrado. Já não há mais livros que queria ler, filmes que queira ver, músicas que queria ouvir. Já não me dá prazer comer, beber, dormir. Por que continuar a ser testemunha dessa degradação que me rodeia? O que vejo no espelho hoje seria um reflexo do espírito dos que me cercam? Herdeiros de nada, capatazes do amor.
Aos 40 anos, tinha esperança. Achava que o ser humano, antes tarde, acabaria percebendo que estava sendo guiado por valores errados. Bens materiais, poder, a capacidade de oprimir, a felicidade efêmera encontrada em uma peça de roupa nova. Tentei, como pude, passar essas idéias a meus filhos. Para quê? Um advogado, outro economista, o terceiro empresário. Ricos, riquíssimos. Me cercam de luxo, motorista, médicos, enfermeiros. Incapazes de passar mais do que 15 minutos a meu lado, falar sobre o que já vivi, sobre os que se foram, sobre amar e ser amado. Nada disso importa. O que vale é ostentar a amigos tudo o que já conquistaram. O carro novo, o barco capaz de chegar ao Caribe, a fazenda no Mato Grosso, o filho que fala seis línguas. Pobres farrapos humanos. Tão solitários dentro de seus cofres milionários, tão isolados dentro de seus carros blindados. Tão inadequados, tão despreparados para o que vem depois. Constroem impérios com a mesma desenvoltura com que demolem espíritos – o deles mesmos inclusive. Pequenos exemplares do pior. Um abraço, um carinho, uma palavra amiga, olhar no olho de um menino de rua, no olho do próprio filho, fazer amor várias vezes ao dia, como meu homem e eu fazíamos, passar a noite em claro batendo papo com amigos sinceros, olhando o céu, contando estrelas, imaginando o que há além. Nada disso faz parte de suas vidas. Ah, meus pobres filhos, almas tão perdidas, tão pequenas, tão miseráveis. Vou abrir a porta do quarto e me deixar misturar a essa podridão. Assistir de meu trono a decadência da espécie. A decadência de meus descendentes, de parte do que sou e do que fui.
E pedir para que a agonia termine. Para que eu possa rever meu meu cúmplice, meu homem. E que, onde quer que nos reecontremos, possamos, pelos próximos 500 anos, fazer amor como fazíamos aos 30: como bichos, tocando nossas almas com a boca, com as mãos, com a pele. E, só depois, falar do resto. Porque o resto é apenas isso: resto.
