domingo, julho 03, 2005
Pra mim?
Um Anjo Torto no Espelho...
Ela disse que já fazia um tempo que pensava em mim. Acordava pensando, almoçava pensando, depois esquecia e voltava a pensar antes de dormir...
A cada amanhecer se prometia procurar-me, mas a promessa perdia-se no decorrer dos afazeres do cotidiano. Quando finalmente ligou e escutou a minha voz já sabia que algo não estava bem. Disse-me segura e firme: "Espere-me. Estou chegando."
Pois sim...esperei ali mesmo, quase sem mover-me. Estava exausta!
Em menos de 20 minutos ela tocava a campainha da porta com pão, queijo e salada.
E foi assim que a primeira mão- ou asa, porque parece que estamos falando de anjos - se estendeu para ajudar-me a encontrar uma fresta naquela bruma que envolvia minha alma.
Durante o almoço improvisado, contou-me sua experiência de morte. A cada palavra sua, eu me reconhecia. Era como se ela fosse minha imagem no espelho.
Palavras que pareciam só minhas estavam na sua boca. Expressões como "alma cansada" ,"falta de luz interior", "silencios recolhidos", "pensamentos confusos", saiam de uma boca que não era a minha, mas que adivinhava meu pulsar, dava nomes a tudo que eu sentia.

Que estava fazendo ali aquela figura no espelho? De quem era mesmo aquela boca que se movia se eu sabia que estava muda e encolhida, assustada que pudesse ler assim as minhas entranhas?
Eu olhava para ela e me via. Era sua ou minha a boca trêmula, os olhos marejados, a voz vagarosa que contava o que era sentir vontade de desaparecer sem deixar vestígios, dissolver-se no éter, não dar qualquer explicação a ninguém? Não a tinha, mesmo!
Ninguém a pediria até que fosse já muito tarde. E então, quem sabe criariam as suas próprias versões? Nenhuma delas teria mais qualquer importância.
Ela falava e eu assentia com a cabeça, muda, profundamente agradecida que sua boca fizesse o papel da minha.
Quando ela limpou a mesa e fez o café, olhou-me como se eu fosse uma foto antiga de um álbum de seu passado. E era...
Então, com muita calma disse-me que eu era ela, só que há um ano atrás. Agora, já estava quase curada.
Explicou-me por alto o processo químico da depressão. Disse que eu não tinha que tentar sair sozinha dessa armadilha, os riscos eram altos demais. O desgaste de energia era excessivo para quem já estava sem forças. Pediu-me para que me deixasse ser ajudada.
Sim! Por favor, sim...
Telefonamos para meu médico e marcamos a consulta para o mesmo dia. Ela disse que era urgente e ele acreditou. Eu também.
Estava entregue às suas asas...
E esse foi o primeiro passo para o processo de ressurreição. Um pequeno grande passo.
Muitas vezes me perguntei como e porque uma pessoa que eu não via há tanto tempo conectou-se comigo à distância, "sentiu" que precisava saber de mim. E justamente uma pessoa que sabia o que dizer-me porque já havia vivido algo semelhante.
Ela foi o primeiro dos muitos anjos da guarda que me cuidaram por aqueles tempos.
Saber o que era depressão de verdade e por experiência própria fez muita diferença. Foi muito importante...
Mas só descobri isso depois de um tempo, quando espalhei a notícia que estava doente.
O mundo não está preparado para receber essa notícia, descobri rapidamente. O mundo pode aceitar que você pegue uma virose ou uma hepatite e precise de um tempo para recuperar-se. Até pode conviver facilmente com uma pressão alta ou uma diabete, que talvez vá necessitar uma medicação específica para toda a vida. Normal. Que bom poder contar com a medicina avançada, não é?
Mas a depressão não é vista da mesma maneira. Ela é percebida como uma doença de fracos, um comportamento histérico para chamar a atenção, uma maneira preguiçosa de ser ou uma forma de "chantagem emocional" para não assumir as responsabilidades da vida moderna.
Além desse preconceito, a maioria das pessoas não sabe o que é a verdadeira depressão. Confunde-a com uma tristeza passageira ou uma sensibilidade exacerbada de TPM, algo que pode ser freado por um Lexotan, um Frontal ou uma noitada de euforia regada a uns drinques. A maioria não sabe do componente orgânico da doença, do desequilíbrio químico no organismo. Querem uma explicação psicológica e não bioquímica. Buscam um motivo externo, uma grande tragédia.
Nem sempre esse grande desencadeador existe.
O meu mundo também pensava assim. E as primeiras reações estavam baseadas nessa ignorância. Alguns me olhavam com pena e me incentivavam a tirar férias e viajar. Outros me diziam que eu tinha que sair de casa, conhecer pessoas novas, procurar me divertir, não me entregar. Ainda algum aconselhou-me a arranjar um "macho" para uma boa trepada. "Cura certeira." Garantiu.
Descupem-me a baixaria, mas os termos foram mesmo esses.
Eu nem respondia. Sorria e mudávamos de assunto. Era um tema incômodo para elas e precisavam achar uma solução imediata. Melhor que acreditassem que aceitar os seus conselhos era o melhor que eu podia fazer para curar-me.
E se não fosse assim, é que eu queria mesmo "fazer o papel de vítima" e ser a "coitadinha". Mais uma frustrada para o rol.
Outra descoberta é que o mundo não tem tempo para cuidar da gente. Todo mundo está sempre muito ocupado e cheio de compromissos. As agendas das pessoas estão repletas de afazeres e o que sobra é para o lazer. Como usar esse tempo com uma pessoa apagada, sem brilho, sem vontade, sem prazer, cheia de pensamentos negativos? E ainda por cima que não aceita os seus conselhos tão simples e maravilhosos!
Argh! Toc-toc...
Se você estivesse acidentada, operada, realmente doente, sim. Claro, amigo é para essas coisas também.
Mas depressão? Melhor te apresentar um amigo do amigo do ex marido e sair para dançar... eu, heim?! Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, mulher!
Algumas amigas quando souberam que eu estava deprimida, me telefonaram e me deram um senhor "puxão de orelha".
Mais ou menos assim:
"O que é isso? Uma mulher como você??? Não admito que tendo sido sempre tão forte, tão cheia de vida, inteligente, bonita, etc e tal diga-me que está deprimida! Isso não pode ser! Eu não posso aceitar isso de você?"
Como assim? Por que eu tinha que ser um modelo para alguém?
Ainda bem que algumas delas não perguntaram nada, não aconselharam nada. Simplesmente fizeram algo.
Nos primeiros dias da medicação, não vi qualquer alteração para melhor. Pelo contrário, sentia-me muito pior! No décimo dia parei de tomar o remédio sem avisar meu médico!
Falha nossa. Nem ele avisou-me que os resultados só apareceriam partir de 15 ou 20 dias, nem eu o chamei para avisar que estava pior.
Nesse dia telefonei para uma das minhas melhores amigas e perguntei o que ela ia fazer aquele final de tarde. Ela respondeu que estava no carro indo para uma reunião de trabalho. Pedi-lhe que me ligasse quando a reunião terminasse e desliguei. Dez minutos depois ela estava diante de minha porta, tirando a jaqueta de trabalho e os sapatos, indo para cozinha fazer um café...enquanto eu tomava uma ducha que lavasse as setecentas e trinta e duas mil lágrimas que salgavam o meu corpo.
Passou meia hora escutando-me. E antes de sair para a sua reunião, avisou-me que viria mais tarde. Para dormir.
Oh! belo anjo da guarda!
Pude suportar aquele por-de-sol vermelho-impossível porque sabia que ela voltaria. Naquela tarde aquela amiga se transformou para sempre na melhor das melhores amigas. E graças a Deus pude retribuir seu afeto e cuidado em outros momentos de nossas vidas, em que a necessitada foi ela.
Voltou muitas vezes com um filme, queijo e vinho. Ou apenas para convidar-me a fazer o supermercado. Ou passava logo pela manhã cedo só para tomar um café antes de ir trabalhar. Ela simplesmente ficou por ali, cercando-me, como se vivesse na porta da frente da minha casa desde sempre. Mais. Como uma irmã.
Como conseguiu que parecesse simples ter tanto tempo para mim?
Pois sim... ela ensinou-me uma lição inolvidável: "Quando uma amiga está precisando de ajuda porque está morrendo de tanta tristeza, jogue a "agenda" fora e escreva outra em que ela é a prioridade 1."
Foi o que ela fez.
Voltei ao médico e iniciei outra medicação, prometendo telefonar a cada três ou quatro dias para dar-lhe um feedback dos resultados. Muitas vezes ele mesmo telefonava-me e conversávamos um pouco. Visitava-o frequentemente.
Tive muitas reações físicas no processo de ressurreição. Taquicardias, suores, diarréias incontroláveis no meio da rua, que me faziam voltar correndo para casa. Acho que eram defesas para não arriscar-me a sair da concha. Mas isso foi passando e passando, cada vez menos freqüentes e mais leves.
Ampliei minha coleção de anjos da guarda com minha cunhada, meu irmão - anjos antigos a quem eu amava à distância porque nunca tinha tempo para eles - e meu amigo francês, que convidou-me para trabalhar com ele num projeto de consultoria espetacular e que, finalmente, acordou minha motivação profissional, antes mergulhada num sono profundo.
Ressuscitar leva tempo... é tão manso como adoecer.
O antídoto para o veneno que impregna o corpo e a alma da gente está dentro das pilulazinhas minúsculas... mas para a recuperação total é preciso contar com a compreensão e o amor incondicional das pessoas que nos cercam.
Ressuscitar não é voltar a ser quem a gente era. Nunca mais seremos os mesmos.
A noção de profundidade dos sentimentos, a consciência plena do privilégio da vida, a total lucidez do que é felicidade são ganhos intrínsecos a quem escapa da morte.
A mudança de valores é profunda. O desprendimento, a compaixão, a tolerância, a paciência, a noção do que é liberdade, respeito por si mesmo e pelo outro... tudo ganha uma dimensão nova.
Parece que a gente fica uma pessoa melhor. Muito mais perto de ser o anjo ocasional de outros...
Depois de alguns anos, curada e profundamente transformada, despertei com a notícia de que um dos meus queridos anjos, contaminado pelo mesmo veneno, não teve a sorte que eu tive...
Sozinho e perdido na espessa bruma, corroído pela dor sem lugar e a tristeza sem nome, não conseguiu salvar-se.
Com um tiro no peito, quitou-se a vida.
Era o meu médico...
É verdade que resumi muitíssimo o que se passou desde a morte sem morte até a vida plena que vivo hoje em dia...
Mas o blog é apenas um caderno de notas e elas vão e voltam ao sabor da inspiração.
Quem sabe o que vou escrever da próxima vez?
Ps. Este post está dedicado com muito carinho aos meus anjos e também a Adelaide Amorim, Katia de Carli e Jussara Bellote. Cada uma delas por um motivo especial...
Elas o sabem.
by Nora Borges - Língua de Mariposa
