terça-feira, setembro 20, 2005

Putz, me descobriram!

Tava guardando esse texto como rascunho pra publicar lá pros lados do natal ou páscoa ou sabe lá, mas eis que uma visitinha ao Haloscan me revelou dois comentários dos gatilhos mais rápidos na blogosfera - Yv e Tesc - pra ele (fiz besteira e publiquei o bicho ao invés de salvar como rascunho) antes que eu corrigisse a cagada. O texto, mais um entre tantos textos excepcionais do Nelson, me fez dar gargalhadas (e o pior é que é verdade). Mas já que comentaram (e eu ia creditar, logicamente), vai agora mesmo: com vocês, o almirante!

TRADUTTORE, TRADITORE

Os apóstolos interromperam a ceia e juntaram-se em torno do Mestre, quando ele disse que naquele momento anunciaria o traidor. E fez-se grande tumulto.

– Quem é ela, senhor? – provocou Pedro, o ciumento, não perdendo a chance de fustigar a saidinha da Madalena.

– Um momento, senhor – adiantou-se Judas, apertando a bolsa contra a cintura. – Os trinta dinheiros eu arrecadei para o caixa dois de vossa campanha para Messias. Eu não…

– Pssssssssshhhhhh – fez o Mestre, que não suportava conversar sobre negócios às refeições. – Vou revelar-vos o traidor. Não quereis ouvir?

Desceu um pesado silêncio sobre o recinto (apesar do muxoxinho de Judas: “…e já depositei tudo numa conta na Fenícia, viu…?”). Então o Mestre proclamou:

– É o tradutor.

Todos pularam no pescoço de Felipe, que era o único que arranhava outras línguas ali e que de vez em quando traduzia as parábolas para ouvintes estrangeiros – apesar da suspeita de que uma vez ele teria mudado o final da história do filho pródigo para um grupo de comerciantes cretenses, já que eles saíram comentando “Olha, gostei quando o pai falou ‘Cantavas durante o verão? Então agora dançai, vagabundo!’” Mas neste instante o Mestre ergueu mais ainda a voz e pôs ordem no cenáculo:

– Silêncio! Silêncio! Tendes ouvidos e não ouvis? Eu falo do tradutor das Escrituras! O adaptador dos textos sagrados! O grego parvo que verterá erroneamente as minhas palavras e as dos profetas para a posteridade!

Todos voltaram a seus lugares e novamente fez-se a quietude (tirando o “Gasp, gasp, gasp!” de Felipe). Após beber da taça de vinho o Mestre tornou:

– Imaginai que o néscio traduzirá minhas falas com a pena da estultice? Por exemplo, desde quando eu falaria “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus?” Tende paciência! O pascácio não saberia que o aramaico
gomala quer dizer tanto camelo quanto corda? Ele teria que traduzir logo como camelo? E pior: um camelo… tentando atravessar uma agulha? Pfui. Eu não sou tão ruim assim de metáfora, sabeis?

Os apóstolos se entreolharam. Ouviu-se um abafado ruído de mastigada num pão ázimo.

– E quanto a meu nome? – tornou o indignado Mestre, tomando mais um gole de vinho. – O traidor irá verter meu nome para… Jesus de Nazaré? Até onde as artimanhas da língua grega, a serviço da Escolástica que virá por aí, não anuviarão a verdade? Qualquer calouro de yeshivá sabe que o hebraico
Yeshua ben Yossef é Jesus, Filho de José! O estúpido extirpará o patronímico e imporá o gentílico para atenuar a importância do nome do marido de minha mãe! Aliás, ela também terá suas características adulteradas pelo helenismo lingüístico, pois, no hebraico almah utilizado na profecia de Isaías, queria dizer tão somente menina, e não virgem!

Manteve-se um silêncio dos mais obsequiosos entre os discípulos, do tipo “Mmm, é o senhor que está dizendo…”. O Mestre secou a taça de vinho e deu um murro na mesa que fez tinir a travessa com o guisado de cordeiro – para então prosseguir:

– Até minhas palavras na cruz serão citadas fora de contexto pelo tradutor iníquo, porque eu…

Nisso João chegou-se ao peito do Mestre e perguntou, com os olhos arregalados:

– Mestre… Sereis crucificado?

A essa altura o Mestre, já desabando o braço direito por sobre o ombro de João, suspirou e disse, como quem entrega os pontos:

– João, João. Se for depender da tradução desta víbora grega, viverei eternamente crucificado pela crítica literária…

Correu um sussurro entre os apóstolos que pareceu soar como “Deve ser tensão pré-pascoal…”. De qualquer modo Tiago, o mais ponderado ali, ao servir outra rodada de vinho, pulou a taça do Mestre. Sabe lá.

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